Antes de assumir o baixo do Yo La Tengo, James McNew já havia gravado o último disco do Christmas e algumas canções para uma incipiente carreira solo. Em 92, o YLT lançou May I Sing With Me, que alinhou o grupo às melhores guitar bands da época e preparou terreno para os quatro ótimos álbuns seguintes, lançados pela Matador. O projeto solo lo-fi de James, batizado de Dump, tomou forma um ano depois, com o lançamento de Superpowerless pela gravadora holandesa Brinkman. A proposta pouco mudou nos quatro discos posteriores, sempre com um portastudio dando conta de gravar e mixar voz, guitarra, baixo, órgão e bateria.
O Dump condensa em seu DNA virtudes que pontuaram diferentes fases do Yo La Tengo. É nítida a semelhança com as repetições entorpecentes do clássico Painful, assim como são evidentes as raízes fincadas na música pop tradicional americana – influência que deu um toque classudo à I Am Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass, e que em sua carreira solo é bastante acentuada para o funk. Outra ponto em comum é que McNew não pensa duas vezes antes de incluir covers em seus discos.
A Plea For Tenderness (Brinkman, 1998) é o terceiro álbum do Dump. Suas 13 faixas parecem versões lo-fi do Yo La Tengo para standards dos anos 60, de modo que fica difícil reconhecer as três regravações presentes no disco. São composições pop de rara sutileza, onde teclados vintage ocupam os espaços que seriam das guitarras esporrentas de Ira Kaplan. O resultado beira a perfeição, com McNew transitando entre a atmosfera contemplativa de faixas como I Hear You Looking e as baladas bucólicas de Fakebook.
Nesta década, McNew foi para o cast da californiana Shrimper Records, responsável pelo lançamento de That Skinny Motherfucker With The High Voice, album de 2001 só com covers do Prince, e do super recomendado A Grown-Ass Man, de 2003, último registro do Dump até agora. Em breve posto estes outros discos por aqui…
O Number One Cup começou em 1993, em Chicago, quando o guitarrista Seth Cohen deixou o Eliot, sua antiga banda. A estréia do novo grupo, Possum Trot Plan, veio em 1995, e o segundo álbum saiu no ano seguinte, ambos pela Flydaddy. Wrecked By Lions tem mais guitarras que seu antecessor, e mantém a profusão de canções redondas e grudentas.
Segundo Cohen, o som do Number One Cup nessa fase era um produto das coleções de discos dos integrantes. Isso fica claro na simplicidade que rege as quinze faixas de Wrecked By Lions, com os três vocalistas se revezando em melodias que dialogam com o melhor do indie pop americano da época. Eventualmente sobressaem timbres de piano, violão e uma ou outra percussão menos usual, mas a dianteira fica mesmo por conta das ótimas guitarras, que trazem à mente bandas como Built To Spill, Archers Of Loaf e Superchunk.
Em 1999, o Number One Cup lançou People, People, Why Are We Fighting?, seu terceiro e último álbum. Seth Cohen formaria em seguida o Fire Show, em companhia de Michael Lenzi, baterista do NOC. Com uma proposta mais experimental, o Fire Show também lançou três discos, mas nunca se aproximou da despretensão (tampouco da qualidade) da antiga banda.
Em 2003, Angus Andrew e sua namorada Karen O. trocaram o Brooklyn por uma residência rural no estado de Nova Jersey. Quando o YYYs saiu em turnê, os outros dois integrantes do Liars também se mudaram para a casa de campo, e, a partir de sombrias caminhadas noturnas pela floresta, começaram a pensar na concepção de seu segundo álbum. Interessado em forças ocultas, o trio passou a pesquisar sobre bruxaria na Internet. Um erro de digitação (brocken witch ao invés de broken witch) os levou a conhecer a Walpurgisnacht, uma celebração do folclore alemão. Segundo a tradição, no primeiro dia da primavera os homens saiam às ruas, acendendo fogueiras e fazendo muito barulho na esperança de espantar os demônios que surgiriam depois de ficarem presos durante o inverno. Esta foi a principal inspiração para a obra-prima do Liars, gravada na própria fazenda e produzida por David Sitek, do TV On The Radio.
Uma sensação de medo e escuridão perpassa todo o álbum, fazendo com que o ouvinte seja tragado para uma atmosfera medieval perturbadora. Imagine uma viagem lisérgica numa procissão pagã, embalada por uma marcha fúnebre hipnótica que te conduz a uma bad trip sufocante, com batidas tribais frenéticas e sintetizadores densos que não permitem abstrair o que acontece ao seu redor. A influência do Gang of Four ainda é nítida, mas nada aqui funcionaria numa pista. Os momentos moderninhos e potencialmente dançantes estão imersos no caos, e surgem com uma agressividade que potencializa a demência do disco.
Definitivamente, They Were Wrong So We Drowned não é acessível. Mas audições num contexto adequado (sozinho e drogado num quarto escuro) podem facilmente incluir o Liars entre suas bandas favoritas da década.
If You're a Wizard Then Why Do You Wear GlassesHold Hands And It Will Happen Anyway
Formado em 1992 pelo guitarrista Otis “O” Bartholomeu e o baixista Josh Higgins — ex-membros do Olivelawn —, o Fluf é fruto da diversificada cena de San Diego do início dos anos 90. Home Improvements, de 1994, é o segundo dos cinco álbuns do grupo, sucedendo a estréia Mangravy. A afeição pelo Hüsker Dü é óbvia nas melhores faixas, começando pela abertura Sticky Bun. Assinalam-se também tendências mais troglodíticas, que colocam o Fluf em sintonia com o stoner rock, então em gestação. Não por acaso, o baterista do Olivelawn, Eddie Glass, na mesma época assumia a guitarra do Fu Manchu — que mais tarde abandonaria para dar à luz o Nebula.
A banda londrina PENS é formada por três garotas, que fazem um som com guitarras barulhentas, ritmo acelerado, canções curtas e melodias pop. Ironicamente, o que as difere das Vivian Girls é o fato de a principal referência estética de cada trio ter surgido no país do outro. Enquanto as nova-iorquinas bebem na fonte do Shop Assistants, as inglesas seguem a cartilha riot do Frumpies. Também procedem as comparações com outros grupos americanos atuais; mas, além de não dificultar a audição com uma produção tão estourada (como o Times New Viking), o PENS sabe que um bom disco é feito por várias canções, não por três faixas perdidas em meio a ruídos pretensamente art rock que não passam de encheção de linguiça — artifício que transformou em CDs o que deveriam ser EPs do Japanther e do No Age.
Lançado em setembro pela De Stijl Records, Hey Friend, What You Doing? (compre) é uma estréia despretensiosa, onde boas influências e limitações técnicas criam uma sonoridade que, se não é muito original, conquista pela autenticidade. Palhetadas incessantes sujam todo o álbum, sobre uma bateria repetitiva e quadrada, e só não conseguem se sobrepor ao timbre agudo de um teclado infantil que funciona como fio condutor para os momentos mais acessíveis. As letras e vocais adolescentes aproximam as garotas dos artistas da K Recs que tinham um um pé no riot grrrl e outro no twee. Hey Friend é, sem dúvida, uma das melhores estréias do ano. A dica veio num post do Gilberto, do Lazer Guided Melodies.
One Sock Missing é o segundo disco do Grifters, quarteto de Memphis que já passou pelo Last Splash com Crappin’ You Negative, de 1994. Lançada em 1993, esta é a estréia do grupo pela Shangri-la, onde permaneceriam até 1996, quando assinaram com a Sub Pop. One Sock Missing é o momento em que a estética do Grifters se definiu por completo — produção caseira, guitarras retorcidas, vocais anárquicos, cozinha caótica. Ecoam vividamente os blues psicóticos do Captain Beefheart e do Pussy Galore, contrastando com um apelo pop quase sufocado. Em Tupelo Moan, a banda faz menção à tradição musical de sua cidade, com gaita e slide guitar. Faixas como o hit She Blows Blasts Of Static e as ótimas Corolla Hoist e Encrusted subvertem — por meio de estruturas desconstruídas e doses nocivas de ruído — a lógica do guitar pop que dominava as college radios na época. A capa, como a maioria das capas do Grifters, traz um desenho horroroso do baixista Tripp Lamkins.
The Grifters - She Blows Blasts Of StaticThe Grifters - Encrusted
Não estou conseguindo acompanhar todos os discos lançados por Robert Pollard este ano. Alguns acabaram nem sendo citados no blog, negligência que não poderia se repetir neste terceiro álbum do Boston Spaceships – banda em que também tocam Chris Slusarenko (ex-GBV) e John Moen (The Decemberists). Zero to 99 é bastante influenciado pelos anos sessenta, passando pelos clichês de forte apelo pop até chegar em momentos mais garageiros e psicodélicos. É o melhor registro do trio até agora, e parte deste êxito se deve às participações especiais de Sam Coomes (Quasi), Scott McCaughey (Minus 5) e Peter Buck (R.E.M.). Mr. Ghost Town, com um riff 60’s contagiante, é a música mais legal de Pollard em 2009.
O Hell On Wheels começou em 1994, na capital sueca Estocolmo, formado por Rickard Lindgren (guitarra/vocal) e pelos cônjuges Åsa Sohlgren (baixo/vocal, menina) e Johan Risberg (bateria, rapaz). O primeiro álbum do grupo, There Is a Generation of Handicapped People to Carry On, saiu em 2001; seguido em 2003 por Oh My God What Have I Done. No fim de 2006, o Hell On Wheels veio ao Brasil — juntamente com El Perro Del Mar e o genial Jens Lekman —, para a primeira edição da Invasão Sueca. Tocaram em São Paulo, no Rio e em Curitiba. Na ocasião, o trio divulgava o recém-lançado The Odd Church, único de seus discos a sair por aqui (via Coquetel Molotov).
Em The Odd Church, os escandinavos utilizam e expandem a fórmula do Pixies; mas jamais se limitam a ela. Em geral as músicas são irretocáveis, variando entre agradavelmente grudentas, na pior das hipóteses, e absurdamente perfeitas — como os carros-chefe Come On e Alexander. The Odd Church é um álbum de hits, acima de tudo. Clara e forte, a ótima produção deixa transparecer o entrosamento dos integrantes. Diante da dançante As We Play, por exemplo, quase toda a geração rock-de-pista-NME soa mais insossa do que água industrializada com sabor.
Hell On Wheels - Come OnHell On Wheels - As We play
O Silkworm surgiu na pequena Missoula, no estado americano de Montana, em 1987. Antes de se mudar para Seattle nas primeiras semanas da década seguinte, a banda lançou alguns EPs, influenciada pelo Mission of Burma e pelo pós-punk inglês. Em meio ao furacão grunge, as raízes fincadas nos anos 80 os deixaram um pouco antiquados para o rock alternativo da época — o que não impediu que lançassem dois discos pela Matador e fossem produzidos por Steve Albini. E, como o mundo dá voltas cada vez mais rápido, a sonoridade oitentista permitiu que o grupo tirasse proveito dos anos 00’s, antes de declarar seu fim em 2005. Após o término, foi organizado um tributo ao Silkworm, intitulado An Idiot To Not Appreciate Your Time.
Firewater, de 96, marca a estréia na Matador. A abertura Nerves é densa e melódica, mostrando logo de cara que a sonoridade truncada e estridente de bandas como Gang of Four já não era a única referência. Apesar da estética 80’s ainda predominar, quase comprometendo o disco, ela é compensada por sempre bem-vindos flertes com os anos 90, como acontece em Quicksand, com guitarras soltas e vocais que remetem ao Pavement. Vale mencionar que, em 2001, três integrantes do Silkworm se juntaram a Stephen Malkmus para formar o Crust Brother. Qualquer dia falo mais sobre esta outra banda.
Algum tempo atrás, anunciou-se que o próximo trabalho de Daniel Johnston seria produzido por Jason Falkner, mais conhecido como colaborador de Paul McCartney e de Beck. Segundo nota divulgada para a imprensa, a intenção seria dar vida, pela primeira vez, às “rock and roll symphonies” antes existentes apenas na misteriosa mente de Daniel. É natural, diante de tal declaração, imaginar um novo Smile — sons mágicos; um universo inexplorado, de dimensões impensáveis. Um observador mais atento, contudo, teria previsto a saída bem mais simples que acabou se concretizando.
Maior referência na obra de Johnston, além de grande ponto em comum entre ele e o produtor, em Is And Always Was vêm à tona, com clareza e segurança inéditas… os Beatles. Dentro da torturada cabeça, ao lado do Capitão América, marcas de refrigerante, Jesus e o Capiroto, temos velhos arquétipos roqueiros, da mesma sinceridade tocante que fez a boa reputação do gênio de Daniel. Is And Always Was (compre aqui) é um álbum pop despretensioso para os padrões vigentes. Excluídos os tão alardeados distúrbios, o que separa Johnston dos demais — diferente do que uma leitura superficial de seus discos anteriores pode apontar — é, afinal, sua sensibilidade. Ele é um artista; simples assim. E o Daniel Johnston “normalzão” nada deve ao antigo.
Daniel Johnston - Queenie The Doggie Daniel Johnston - High Horse
Após dois discos solo sob o nome de Preston School of Industry, Scott Kannberg voltou a assinar como Spiral Stairs — o mesmo pseudônimo usado para creditá-lo nos encartes do Pavement. Talvez seja uma tentativa de pegar carona no retorno da banda, já que o ótimo Preston School passou despercebido por muitos fãs em potencial. Previsto para 20 de outubro, The Real Feel será lançado na Inglaterra pela Domino e nos Estados Unidos pela Matador. Além dos amigos que já contribuíam no PSOI, participaram deste álbum integrantes do Posies, e Kevin Drew, do Broken Social Scene. Durante uma desatenta primeira audição, tive a impressão de que Scott conseguiu conciliar a essência alt-country de Moonson com as melodias soltas e as guitarras desconexas de All This Sounds Gas.
O Tall Dwarfs consiste em Chris Knox e Alec Bathgate. Pioneiros da estética lo-fi, os neozelandezes começaram sua carreira em 1981, com o compacto Three Songs — um dos primeiros títulos da Flying Nun. Os “gnomos altos” lançaram EPs e singles por toda a década, mas seu álbum de estréia, Weeville, só viria em 1990. Fork Songs, de 1992, é uma excelente amostra do estilo da dupla: percussões despojadas substituem a bateria, cobertas por guitarras minimalistas, barulhos estranhos e vocais suaves. A sonoridade influenciou, entre inúmeros grupos, os americanos da Elephant 6. Destaque para as lindas We Bleed Love e Daddy, e para o reggae (?!) Lowlands. A ótima Life Is Strange se parece com os melhores momentos de Tobin Sprout no Guided By Voices.
Tall Dwarfs - Life Is StrangeTall Dwarfs - Lowlands
O sétimo álbum do Built To Spill será lançado nos próximos dias pela Universal. Sua sonoridade dá sequência à do viajado You In Reverse, de 2006. There Is No Enemy é a primeira experiência do BTS com gravação digital, o que proporcionou à banda uma liberdade de experimentação inédita. É impressionante como Doug Martsch consegue transformar camadas sobrepostas de guitarras em canções grudentas. Por outro lado, o novo método também atrasou o lançamento — Martsch preferiu remixar tudo em equipamentos analógicos, sentindo certa frieza no som. Sam Coomes (Quasi), Paul Leary (Butthole Surfers) e Roger Manning, entre outros amigos, participaram do disco. A atual turnê, que começou em agosto, inclui shows com o Dinosaur Jr neste mês.
Surgido em 1997 na cidade de São Francisco, o Thee Oh Sees estourou meses atrás com o elogiado Help (In The Red, 2009). Os anos 60 e a psicodelia, que fizeram a fama de sua terra natal, são referências primordiais, ganhando uma roupagem suja e demente. Lançado no ano passado em CD e DVD, Thee Hounds Of Foggy Notion deve ser o sexto álbum da confusa discografia da banda, que neste trabalho apostou em composições incrivelmente intimistas para quem já fez um split como Intelligence. Tal guinada é reflexo do inusitado processo de gravação, com a banda tocando despretensiosamente pelas ruas de São Francisco, sempre sob as lentes do diretor Brian Lee Hughes.
O disco tem calmas melodias que são suavemente conduzidas para passagens perturbadoras. Fugindo das influências hippies que colorem seus outros discos, as viagens de Thee Hounds estão mais para as experimentações do Velvet Underground – a bateria minimalista, os vocais femininos sedutores, os dedilhados econômicos e o clima hipnótico. Mas o Thee Oh Sees não soa tão soturno; sua faixas são aconchegantes e deliciosamente lo-fi, sem esbarrar na tosqueira prevista para um disco gravado nestas condições.
O vídeo abaixo foi ripado do DVD. Repare que o ruído dos carros acabou se transformando em mais um elemento da música.
Este EP, lançado em janeiro de 1995, reúne todas as gravações conhecidas do Belreve. Mais uma excelente cria de Ohio, o trio tinha como vocalista e guitarrista Matt Reber, líder do New Bomb Turks, e no baixo e bateria duas garotas — respectivamente Elizabeth e Jenny, segundo o encarte. Muito diferente do punk do NBT, o som do Belreve sintetiza muito do que torna memorável o indie americano daquela época. As faixas são grudentas e perfeitas, dando conta de soar decididamente lo-fi, à maneira consciente dos anos 90; e ainda assim, mesmo sem um único solo, evocar a sensibilidade inimitável de J Mascis.
Belreve saiu pela Slumberland, composto por sete músicas, sendo Ron e Lookout exclusivas da mini-compilação. The Sulk King foi lançada originalmente em 1994, num split com os conterrâneos do Guided By Voices, enquanto Nothing e The Sky’s Falling saíram como single, e Walk fazia parte da coletânea 7” Cowtown Vol. 1 — tudo isso pela Anyway Records. Shut Up integrava a compilação For Your Years Only, da Eardrop.
Vale ressaltar que o arquivo que disponibilizamos aqui, em 320 Kbps e com arte escaneada, é cortesia do saudoso Outdoor Miner.
Fred “FM” Cornog cresceu na cidade de Summit, em New Jersey. Na juventude, sem grandes perspectivas, trabalhou em diversos subempregos, incluindo uma fábrica de lâmpadas e uma loja de plantas. Ocupava suas horas vagas compondo para uma banda que nunca conseguiu formar, e auto-medicando, com álcool e entorpecentes, sua não-diagnosticada depressão. Os vícios acabaram por levá-lo ao tal “fundo do poço”. No fim dos anos 80, Cornog dormia em uma estação de metrô em Nova York, tocando nos túneis em troca de dinheiro para as drogas.
Foi quando conheceu Barbara Powers. Mais do que fornecer um teto e ajudar o novo namorado a lidar com os problemas químicos, Barbara vislumbrou a oportunidade de criar seu próprio selo, o Hell Gate. Sob o nome East River Pipe, passaram a lançar — primeiro em cassete, depois em vinil — gravações feitas por Cornog ao longo da última década, bem como músicas novas. A inglesa Sarah Records adotou o projeto a partir do incrível single Helmet On, de 1993.
Poor Fricky saiu pela Sarah em 1994, e no ano seguinte pela Merge, nos Estados Unidos. O segundo álbum do ERP, como quase todo o material da one-man-band, foi gravado em oito canais, na casa de Fred e Barbara. Mas seria impróprio classificá-lo como lo-fi. FM, na verdade, é um dedicado artesão, construindo a partir do minimalismo canções perfeitamente arranjadas e produzidas, de honesta profundidade emocional. As 13 faixas de Poor Fricky, conduzidas pela voz solitária de Cornog, refletem um compositor maduro, confortável em seu retiro — o East River Pipe não é afeito a apresentações. O mundo de Fred (que lançou em 2006 seu sexto disco, What Are You On) cabe em um pequeno apartamento no Queens. É lá que sua cura se encontra.
East River Pipe - Bring On The LoserEast River Pipe - Superstar In France
O Noise Addict surgiu no ano de 1992 em Bondi Beach, praia a sete quilômetros de Sidney. Liderada por Ben Lee, a banda lançou alguns EPs no começo dos anos 90, entre eles um split com o Silverchair e um dez polegadas via Ecstatic Peace, selo de Thurston Moore. Meet The Real You, primeiro álbum cheio dos australianos, veio em 95, quando Ben já havia debutado em sua carreira solo. Após o lançamento, fizeram uma turnê com o Sebadoh e terminaram em seguida. Este ano o grupo retornou com It Was Never About The Audience, que conta com uma formação totalmente diferente: Ben Lee, Lou Barlow e Lara Meyerratken.
Meet The Real You tem influências do Pavement e do hardcore californiano, mas sem a truculência desnecessária do HC e as guitarras excessivamente tortas de Stephen Malkmus, resultando num guitar pop ensolarado. Outra referência americana é o Lemonheads, cujo líder foi satirizado/homenageado em I Wish I Was Him, uma das primeiras faixas gravadas pelo Noise Addict. Meet The Real You pode parecer teenage demais, e realmente é – o disco foi produzido quando Ben Lee tinha 16 anos. Mas as músicas são ótimas, dignas de ser trilha sonora destes dias quentes, até mesmo para os indies mais ranzinzas.
O Thinking Fellers Union Local 282 foi um dos grupos mais criativos e inclassificáveis dos anos 90. Formado na cidade de São Francisco, estreou em 1988 com Wormed By Leonard, lançado em cassete pela Thward Productions, selo dos próprios integrantes. Um ano depois veio Tangle, ainda pela Thward. O TFUL assinou, então, com a Matador, que lançaria as três obras-primas da banda: Lovelyville (1991), Mother Of All Saints (1992) e Strangers From The Universe (1994). Gravaram mais alguns bons trabalhos por outros selos, até encerrarem indefinidamente as atividades no início desta década.
Strangers From The Universe é repleto de dissonâncias e experimentalismos; que permeiam, com liberdade e fluidez, passagens amparadoramente pop. Seria até aceitável, do ponto de vista da engenhosidade instrumental, enquadrar o Thinking Fellers no rótulo “pós-rock”, não fosse por um pé ainda fincado nas raízes punk — a instrumentação é solta, resvalando na inaptidão. Inúmeras comparações são possíveis: de Calvin Johnson, lembrança inevitável nos vocais graves e clima inocente da convidativa abertura My Pal The Tortoise, à demência do The Fall. Vem à mente também, em diversos momentos, o Pavement no auge de seu sarcasmo e inventividade.
TFUL 282 - My Pal The Tortoise TFUL 282 - February
O escocês Francis McDonald é mais conhecido como ex-baterista do Teenage Fanblub, embora já tenha gravado com BMX Bandits, Pastels, Belle & Sebastian e Eugenius, entre outros nomes ilustres de seu país. Tocando todos os instrumentos e sob a alcunha de Nice Man, Francis lançou-se em carreira solo no começo desta década. O debute, Sauchiehall & Hope, de 2003, é uma auto-intitulada Opera Pop sem contra-indicações para quem gostou dos últimos trabalhos do Teenage. O disco foi lançado no Brasil pela Slag, e até rendeu uma turnê por aqui. The Art of Hanging Out saiu no ano seguinte, e traz melodias mais felizes, guitarras mais distorcidas e letras um pouco mais otimistas em relação ao amor. A sonoridade elétrica é fruto da companhia dos Bad Boys, que em faixas como Mine Mine Mine restabelecem um elo não tão perdido entre o Teenage Fanclub e o shoegaze.
Vazou o tão esperado novo álbum do seminal Pastels, a banda mais importante a surgir na fértil Escócia. Two Sunsets foi lançado em parceria com os japoneses do Tenniscoats, que também é formado por um casal. Das doze músicas que compõem este split, apenas a abertura Tokyo Glasgow é creditada às duas bandas. Stephen Pastel e Katrina Mitchell contribuem com oito faixas, entre elas a que dá nome ao disco e o single Vivid Youth – cujo clipe, rodado em super 8, deixou os fãs de indie pop ainda mais ansiosos por este lançamento. O coadjuvante duo nipônico contribui com apenas três, sendo que uma delas é About You, cover do Jesus and Mary Chain, já lançada anteriormente como b-side. Um álbum irretocável, assim como tudo que leva a assinatura de Stephen McRobbie.
Pastels - Yomigaeru
Tenniscoats - About You (Jesus and Mary Chain)
ps. O arquivo está em 224 kbps, mas parece que foi ripado do vinil. Algumas faixas apresentam problemas, em breve postaremos uma versão melhor.