Posts Tagged ‘pós-punk’

The Fall – Your Future Our Clutter

11/03/2010

Your Future Our Clutter [2010] -> Download

O vigésimo oitavo disco de estúdio do The Fall está previsto para o dia 26 de abril. Your Future Our Clutter é a estréia dos ingleses na Domino, casa de diversos seguidores (diretos ou indiretos) de Mark E. Smith. O que não é tão raro — sem dúvida, o grupo de Manchester é um dos mais influentes em atividade. Gravado ao longo do ano passado em vários estúdios no norte da Inglaterra, o novo trabalho mantém a formação que aparece em seu antecessor, Imperial Wax Solvent (Castle, 2008).

A definição certeira de John Peel é lembrança inevitável. “They are always different, they are always the same”. Apresentando os típicos ritmos frenéticos, baixo robusto, vocais falados e frases angulares de guitarra — rearranjados de forma criativa e inteligente com o inesgotável frescor de Smith —, Your Future Our Clutter é da densidade sempre esperada da banda favorita de Peel. Mais uma vez, os mestres do art rock criaram um álbum rico, assustador e atemporal, que poderia se encaixar em qualquer fase do grupo.

The Fall - O.F.Y.C. Showcase
The Fall - Weather Report 2

Liars – They Were Wrong So We Drowned

31/10/2009

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They Were Wrong So We Drowned [2004] <- Download

Hoje, dia das bruxas, é uma ótima data para dar continuidade à discografia comentada do Liars.

Em 2003, Angus Andrew e sua namorada Karen O. trocaram o Brooklyn por uma residência rural no estado de Nova Jersey. Quando o YYYs saiu em turnê, os outros dois integrantes do Liars também se mudaram para a casa de campo, e, a partir de sombrias caminhadas noturnas pela floresta, começaram a pensar na concepção de seu segundo álbum. Interessado em forças ocultas, o trio passou a pesquisar sobre bruxaria na Internet. Um erro de digitação (brocken witch ao invés de broken witch) os levou a conhecer a Walpurgisnacht, uma celebração do folclore alemão. Segundo a tradição, no primeiro dia da primavera os homens saiam às ruas, acendendo fogueiras e fazendo muito barulho na esperança de espantar os demônios que surgiriam depois de ficarem presos durante o inverno. Esta foi a principal inspiração para a obra-prima do Liars, gravada na própria fazenda e produzida por David Sitek, do TV On The Radio.

Uma sensação de medo e escuridão perpassa todo o álbum, fazendo com que o ouvinte seja tragado para uma atmosfera medieval perturbadora. Imagine uma viagem lisérgica numa procissão pagã, embalada por uma marcha fúnebre hipnótica que te conduz a uma bad trip sufocante, com batidas tribais frenéticas e sintetizadores densos que não permitem abstrair o que acontece ao seu redor. A influência do Gang of Four ainda é nítida, mas nada aqui funcionaria numa pista. Os momentos moderninhos e potencialmente dançantes estão imersos no caos, e surgem com uma agressividade que potencializa a demência do disco.

Definitivamente, They Were Wrong So We Drowned não é acessível. Mas audições num contexto adequado (sozinho e drogado num quarto escuro) podem facilmente incluir o Liars entre suas bandas favoritas da década.

If You're a Wizard Then Why Do You Wear GlassesHold Hands And It Will Happen Anyway

Silkworm – Firewater

13/10/2009

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Firewater [1996] <- Download

O Silkworm surgiu na pequena Missoula, no estado americano de Montana, em 1987. Antes de se mudar para Seattle nas primeiras semanas da década seguinte, a banda lançou alguns EPs, influenciada pelo Mission of Burma e pelo pós-punk inglês. Em meio ao furacão grunge, as raízes fincadas nos anos 80 os deixaram um pouco antiquados para o rock alternativo da época — o que não impediu que lançassem dois discos pela Matador e fossem produzidos por Steve Albini. E, como o mundo dá voltas cada vez mais rápido, a sonoridade oitentista permitiu que o grupo tirasse proveito dos anos 00’s, antes de declarar seu fim em 2005. Após o término, foi organizado um tributo ao Silkworm, intitulado An Idiot To Not Appreciate Your Time.

Firewater, de 96, marca a estréia na Matador. A abertura Nerves é densa e melódica, mostrando logo de cara que a sonoridade truncada e estridente de bandas como Gang of Four já não era a única referência. Apesar da estética 80’s ainda predominar, quase comprometendo o disco, ela é compensada por sempre bem-vindos flertes com os anos 90, como acontece em Quicksand, com guitarras soltas e vocais que remetem ao Pavement. Vale mencionar que, em 2001, três integrantes do Silkworm se juntaram a Stephen Malkmus para formar o Crust Brothers. Qualquer dia falo mais sobre esta outra banda.

QuicksandNerves

The Clean – Anthology

10/07/2009

anthology

Anthology [2002] <- Download CD 1, CD 2

O The Clean foi formado em 1978, na Nova Zelândia, pelos irmãos Hamish e David Kilgour, respectivamente bateria e guitarra. Depois de uma breve tentativa de se estabelecer em Auckland, o grupo retornou à Dunedin natal e firmou-se com o baixista Robert Scott, em 1980. Uma das primeiras bandas de seu país a tocar material próprio, o trio desenvolveu cedo sua sonoridade, influenciado pelo punk e pelo rock dos anos 60 — o que motivou o entusiasta Roger Shepherd a criar, em 1981, a Flying Nun Records, para pôr no mercado o 7″ Tally Ho/Platypus. Reza a lenda que o primeiro lançamento do The Clean foi gravado ao vivo em quatro canais, e que as letras das duas faixas foram escritas por David Kilgour num guardanapo, na manhã do dia da gravação. Fato é que o single vendeu surpreendentemente bem, marcando o início de uma era totalmente nova no Kiwi Rock (como é chamado o rock neozelandês). Nascia o Dunedin Sound, e começava o reinado da Flying Nun.

Ainda em 1981, o Clean lançou Boodle Boodle Boodle, em que dispensaram os atrasados técnicos de som do arquipélago e recrutaram os amigos Chris Knox (Tall Dwarfs) e Doug Hood para o comando do parco equipamento de gravação. O EP alcançou a incrível quarta posição da parada nacional. No ano seguinte vieram mais um EP, Great Sounds Great, Good Sounds Good, So-So Sounds So-So, Bad Sounds Bad, Rotten Sounds Rotten; e um single, Getting Older. O grupo então se desmembrou em vários outros projetos, só se reunindo novamente em 1988, para uma série de shows. Em 1990 foi lançado enfim o primeiro álbum completo, o ótimo Vehicle — seguido por Modern Rock, em 1994; Unknown Country, em 1996; e Getaway, em 2001. Está prometido para este ano um novo disco, batizado de Mister Pop.

Anthology é a melhor introdução possível ao som do Clean. O álbum duplo saiu em 2002 pela Flying Nun e no ano seguinte pela Merge; reunindo, em sua primeira parte, todo o material da fase clássica do nome mais importante da história do Kiwi Rock. Em ordem cronológica, estão as duas faixas do primeiro single, as cinco de Boodle, as sete de Good Sounds Good e as três de Getting Older, mais algumas raridades. O disco dois consiste em uma boa seleção de músicas da fase pós-reunião (exceto pelo então recém-lançado Getaway). Destacam-se em Anthology, além da infinidade de hits, momentos como Point That Thing Somewhere Else, do primeiro EP, que se parece muito com algo que o Yo La Tengo viria a fazer apenas dez anos depois; e Twist Pop, que fecha a coletânea soando como uma contra-homenagem ao Pavement, declaradamente um dos maiores admiradores do The Clean.

The Clean - Billy Two
The Clean - Point That Thing Somewhere Else
The Clean - Twist Pop

TheClean

Blank Dogs – Under And Under

07/07/2009

blank dogs

Under And Under [2009] <- Download

Antes mesmo que o público soubesse seu nome, o nova-iorquino Mike Sniper, sob a alcunha de Blank Dogs, já conquistara fama de prolífico com um monte de singles e EPs — espalhados por pequenos selos ao longo de 2007 e 2008. O primeiro álbum, On Two Sides, saiu pela TBC no final do ano passado. Aparentemente, Sniper resguardou por um tempo sua identidade e sua localização geográfica a fim de evitar uma carona no hype de sua vizinhança, o Brooklyn. Afinal, hype é para os fracos. Em compensação, veja só, o mistério agiu como fator de interesse para o Blank Dogs, que, no começo de junho, lançou Under And Under pela In The Red — casa dos vizinhos Crystal Stilts e Vivian Girls, ambos com participações no disco.

Como em On Two Sides, no segundo álbum do Blank Dogs notam-se influências do pós-punk e do synth-rock dos anos 80, em climas densos e boas melodias, que pedem algumas audições para revelar sua força. E, para deixar claro que não é inglês, Mike recusa-se a embalar tudo isso numa produção radio-friendly (ou NME-friendly, se você preferir), optando pela gravação caseira. O resultado é algo entre os nova-iorquinos do Dum Dum Girls — outro nome lo-fi solo do Brooklyn, cuja criadora tem com Mike Sniper um bom projeto paralelo, o Mayfair Set — e do Lansing-Dreiden, grupo também de alto teor oitentista e estrategicamente misterioso.

Blank Dogs - Tin Birds
Blank Dogs - Open Shut

*Repare que a batida de Open Shut é um sample de Schizophrenia, do Sonic Youth.